Perdido sob a chuva
Tarcisio Marques de Souza,3ª série.
1945


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Foi lá pelo meados de janeiro, que se passou comigo o que segue. Muito contra gosto, segui para Quixeramobim, afim de passar vinte dos noventa dias que recebi como premio, depois de nove meses de estudos. Por oito horas a fio, correu célere sem acidentes a máquina que arrastava o comboio em que eu viajava, findas as quais, surgiu a estação para a qual me dirigia. O hotel próximo à estação passou a ser meu lar durante os dias que aí permanecia. Poucos dias depois, juntammente com dois de meus colegas, desembarqui em Lacerda. Chamava-se "Beijo" a fazenda para onde, no dorso de três animais, nos conduziu um capataz. No dia seguinte, por trás de uma rocha do tamanho do mais alto edifício de Fortaleza, vinham surgindo os primeiros raios de sol, quando abrindo a porta que dava para o terreiro, avistei já de pé e bem dispostos meus dois amigos. Foi com um côco em cada mão que iniciamos a jornada que demandava a fazenda dos meus companheiros. " A direita de uma jurema deitada, fica o caminho que finda na fazenda que procuram" disse-nos uma velha que interpelamos, após os dois primeiros quilômetros. Seguimos. Logo adiante avistamos uma jurema e um caminho. Na primeira curva da nova rota que seguiamos, surgiu outra jurema, depois outra, mais uma, e assim foram multiplicando-se as juremas. Perdidos! Foi esta triste verdade, que, infelizmente, muito tarde, de4scobrimos. Já o sol ia alto, e dos côcos, apenas dois nos sobravam. Foi levados por três cavalos magros a não puderem mais, que alcançamos as margens do Jaguaribe. Enquanto isto, no céu surgiam nuvens que prenunciavam chuva para, no mínimo, quatro horas. Mal nos apeamos dos animais, numa casa de campo, perdida num sitio abandonado, começou a cair chuva. O dono daquela casa sofria de uma doença qualquer em um olho, que me causou um leve estremecimento no corpo. Do olho estendia-se aos lábios e á fronte. Ao verem o Côco que traziamos, sobre ele cairam todos os da casa, qual gaviões sobre borregos recem-nascidos.. Com grande alivio, embora sob a chuva que de mais a mais engrossava, nos afastámos dali. Umas alpercatas de rabicho protegiam-me os pés contra o pedregulho que cobria o caminho que partia daquela casa. Subimos morros, descemos valas, atravessamos grotas, antes que alcançassemos nova morada. A nossa situação ia de mal a peor. Já não sabíamos por onde seguir. A nova morada que surgiu, não era mais do que uma barraca. A’ sua porta porta uma criancinha de sete anos diverti-se com um bezerrinho zebú. Ao aparecer a dona da casa, um velhinha que já deixara a casa dos setenta, ficámos sabendo que se andassemos mais algumas horas, alcançariamos a fazenda. Seguimos. Afinal vimos surgir à nossa frente uma casa que a julgar pelas descrições que nos fizeram, era a que buscávamos. Menos de meia hora durou a nossa permanencia ali. Percorremos uma parte da fazenda plantada de laranja, cana, manga, e outras frutas que não me vêm à memória. Duas mulas encarregam-se de, sob a guia do morador, nos reconduzir, desta vez pelo caminho certo de volta ao ponto de nossa partida. O sol já se pusera, quando nos jogamos em redes que nos esperavam, após o jantar, na sala de visitas. Durante cinco minutos conversámos alegremente. Mas, logo depois o sono nos dominava. Que noite admiravel! Sem nenhuma interrupção dormimos de oito às oito. Guardo belas recordações dessa interessante excursão.

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