Martírio Cearense
Benjamin Liberato Barroso, 4ª Série.
1945


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Se subirmos ao fastigio da nossa história,e de lá revolvermos um olhar retrospectivo para os horizontes longinquos, já quasi indivulgáveis na penumbra dos tempos coloniais, concluiremos que a nossa vida tem sido grandemente perturbada pelas tremendas crises climatéricas.
Crises estas que com intervalos se sucedem umas às outras, no perene defluir dos anos, apresentando-nos, no belíssimo cenário da natureza, quasi de vez em quando um drama tremendamente horroroso - o drama lancinante das sêcas tremendas.
Quando os elementos se revoltam, transformam completamente o aspecto dos sertões, modificando, assim, inteiramente a face do solo cearense.
Os campos perdem as hervas com que se cobrem, deixando-se ver da terra o dorso desvendado; os prados perem as flores com que se enfeitam; as arvores as folhas com que se vestem, mostrasndo-se inteiramente núas e esqueléticas.
O céu que antes era cheio de nuvens benfazejas, cujas sombras protegem a terra, se mostra firmado num azul triste como o azul das aguas profundas; nem um trapo de nuvem ousa invadir a amplidão do espaço para lhe vir conspuscar a superfície côncava.
O sol que a tudo dava vida, se mostra transformado numa fonte de fogo, a derramar sobre a terra desgraçada raios ígneos, que secam as fontes e matam as árvores, estorricam os campos e crestam a lavoura, exterminando tudo: insetos e aves, vegetais e homens.
Depois de tudo completamente transfigurado por esta soalheira que chegou ao cúmulo, a fome bate inesperadamente aos lares sertanejos, aniquilando as forças orgânicass de seus habitantes; obrigando-os a abandonaram os lares queridos.
Triste, indizivelmente triste, é verem-se legiões e mais legiões de retirantes maltrapilhos, arrastando-se pesadamente pelas estradas ermas e desoladas.
E’ nestas estradas que a peste assola com um ferocidade inefavel, semeando vidas a cada momento, de instante a instante.
Assim como a lâmpada, que por falta de azeite bruxoleia nos últimos lampejos, e espera a cada momento a extinção do último luzir, assim os sertanejos combalidos pela fome, esperam a todo momento a parição cruel e apavorante do fantasma exterminador da vida.
E’ este o espetáculo pavoroso que nos apresenta o Ceará quando a tempestade da sêca desencadeia sobre êle a chuva torrencial das maiores misérias
Se lançarmos a vista na história mundial e compulsarmos página por página, observando os trechos mais comoventes que se referem às terras mais sofredores, talvez não encontraremos uma que seja tão barbaramente açoitada pelo flagelo das sêcas e cujo povo sofra as mesmas dores, agonias e tormentos que têm sofrido os cearenses, nos transes em que as crises climatéricas são tão duras como devéras é a realidade austéra da miséria.
Eis porque digo que os cearenses constituem um povo de mártires e de heróis.

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