"Vida sem Descanso"
A meu pai - O autor.
José Sinval de Sá, 4ª série.
1942


Leia no original

- Uf! Exclama o medico, arfando de cansaço. Há muito não vira uma operação tão dificil...
Lá fora ouvia os passos cadenciados do fazendeiro que o chamara às pressas. Lêra no seu semblante uma súplica, o seu rosto era a evidência da dor. Como que dizia no seu grave silencio: Doutor, salve minha mulher; Doutor, salve meiu filhinho! Fôra um pouco dificil. Foi necessario uma intervenção cirúrgica mui delicada, que fez com rara felicidade.
O pobre homem nem bem ouviu o choro infantil, precipitou-se para o quarto. E nas lágrimas lia-se um mundo de agradecimentos.
Finalmente servira de alguma coisa, Salvara dois seres. Sentiu vontade de beijar a velha que banhava a criança que chorava. Abraçou longamente o farmacêutico que o auxiliou. Era a mesma alegria que sentira há anos, no dia de Natal, ao acordar. Dera duas vidas ao Brasil, ganhando a gratidão eterna do pobre e pacato agricultor. Lembrou-se do seu tempo de estudante. Sempre tivera em mente salvar a humanidade. Condenava sumariamente a guerra, como bárbaro meio dos controladores da economia mundial venceram os contendores. Discutia ardorosamente com os colegas a solução dos problemas sociais. Era da opinião que, levando o progresso ao sertão, evitaria o congestionamento das capitais; fixaria o homem no seu meio. Urgia, apenas, que o sertanejo tivesse na terra que o vira nascer, o que num delírio buscava nas capitais - o colégio, o cinema, o jornal, o rádio, o teatro, o esporte, tudo aquilo que finalmente buscava nos centros adiantados. E assim pensando tomara a si o encargo, quando se formou, de iniciar a campanha, atacando de perto a cidadela, marchando para o oeste, para uma modesta cidade do vale do Piancó. Agora ali estava. Havia anos que ali chegara. Arraigou-se à terra. Chegava até a duvidar que alguém renunciasse àquela terra para viver escravo dos relógios, no meio das fervilhantes multidões, que acreditam ser o tempo dinheiro.
Meses após, acompanhado pelo padre da freguesia, lá se ia êle por aquela mesma estrada, que agora apresentava um aspecto de desolação e sofrimento. Marginavam a terrivel via árvores e indivíduos esqueléticos. Dêstes, uns pediam água e outros água e alimentos. Era a sêca com todo o seu cortejo de horrores, com toda a sua crueldade. Semblantes macerados pelo sofrimento, fantasmas cobertos de farrapos, desfilavam lúgubremente na estrada poeirenta sob o sol abrasador. São os emograntes, vitimas da imprevidência. Não souberam aproveitar a época da fartura. E onde, outrora, esbanjavam-se bebidas alcoólicas nos delírios das festas, cavava-se agora, profundamente, procurando um pouco dágua. Até os cactos desapareceram; constituiram o alimento do gado por alguns meses. E'a tragédia no sertão combusto.
E'a tragi-comédia dêsse pedaço do Brasil.

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Mais um livro, de pleno realismo, virá a lume dentro em breve, enfeixando em suas páginas a tragi-comédia do sermão, drama êste que tem sido manancial de tôda uma caudal de literatura. VIDA SEM DESCANSO, o livro que meu pai escreveu, é mais um subsídio para a grandiosa apopéia da região macerada pelos estígmas da sêca.
Põe o livro em evidencia a figura de um médico, que, renunciando à febre dos gozos e o luxo da capitais, vai abnegadamente exercer sua nobre profissão no âmago da terra mártir, quando surge o monstro da sêca. E a sua vida torna-se uma "vida sem descanso". Já não só tem de combater o messianismo do povo, nem só os charlatães. esmoreceAs auroras encontram-no lutando; lutando vêem-se os crepúsculos. E lá está o titan em todos os lares, onde estão os que sofrem, onde geme um ente humano, onde sangra uma ferida, onde há a dor, acompanhado sempre do bom padre, um seu amigo, com o qual vive sempre em desacordo.
Mas o que torna mais atraente é ser de um impecável realismo.
O drama íntimo é levado num palco de dificil acesso, O mais das vezes irônica e de um sarcasmo que não perdôa o eu exterior. Os seus tipos são antes d tudo reais. o que os faz atraentes, embora incompreensiveis, pois os fatos reais, mormente dos espiritos elevados, se dão nas profundezas do intimo.

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