O livro: Fonte e Base do Conhecimento.
A. Teixeira Guerreiro.
1941


Leia no original

No grande jogo de interesses e deveres, nada há firme no mundo sem um ponto de apoio. Cada dia que escorre, na ampulheita do tempo, - para usar o velho e sovado clichê, - e quanto mais se descobrem e multiplicam os caminhos da vida, essa verdade se cristaliza nas certezas de um axioma.
Desprezar ou descurar do livro, como intencional ou inadvertidamente se vem fazendo, precisamente, nos meios intelectuais e culturais, é um erro perigoso e de cujas consequencias o nosso seculo e os que tem responsabilidade de se orientar pelo fanal do livro, muito se vão arrepender, depois de pagar um tributo pesadissimo.
E é daí que o poeta, mais avisado do que muitos, proclamava:

“O livro caindo nalma
“é germen que faz a palma,
é chuva que faz op mar”

Ou ainda, usando doutra imagem muito propria dos nossos dias:

“O livro é audaz guerreiro,
que conquista o mundo inteiro,
sem nunca ter Waterloo”

Uma observação dolorosa: A mocidade de hoje, apesar de viver abraçada com o livro, entupindo os corredores dos estabelecimentos de educação, não cuiltiva o amor do livro. Nele deita a mão apenas enquanto vai á escola e volta. O proprio desalinho com que sobraça o volume em que vão compendiadas as lições, o descaso com que o arrasta, de cambulhada e entressachado de lapis, tinteiro, regua e compasso, num maltrato, criminoso e imperdoavel, é atestado flagrante da atitude mental perigosa que vimos denunciando. Fazendo côro nessa orquestra descompassada, e quasi que estimulando essa atitude, os pais, por sua vez, tem somente uma preocupação: que os filhos tirem notas nas provas que lhes cheguem para passar no fim do ano. Quasi nada ou pouco lhes interessa que os filhos conheçam a materia que estudam. Passem nos exames, seja por que processo for, e isso é tudo!
É uma mentalidade de retrocesso, caraterizando, dolorosamente, uma epoca sombria.
Dos jovens que cursam as escolas atuais, raros são os que detêm o livro sob a ação prescrutadora dos olhos, por dez ou quinze minutos, antes de se dirigirem aos estabelecimentos escolares a que pertencem. O espectaculo confortador e edificante das epocas que nos precederam, ontem mesmo, daquela avalanche de beneditinos das letras, sequiosos do saber, acurvados, horas a fio e noites a dentro, auscultando a alma dos grandes pensadores dos varios estagios
Evolutivos da humanidade, é rarissimo, senão quasi inexistente nos dias agitados e angustiosos que nós vivemos.
Falta o estimulo e o prazer para os torneios florais do pensamento. O gosto literario ao lado do trabalho de pesquisas e estudos, desapareceu. Em regra o conhecimento é superficial, fugidio e sem base. Os que por audacia ou entusiasmo, se apresentam em publico falando ou escrevendo, via de regra, são apenas um pouquinho mais de analfabetos. O estudo custa trabalho e esforço e, ninguem quer perder tempo com essas babouseiras!... E, daí, esse panorama desconsertante e desolador que a negação pelo livro está apresentando, precisamente dentro dos quadros escolares. O estudante de hoje está se contentando e acha que já faz muito, em papaguear noções mal ouvidas e mal assimiladas, no decorrer de uma aula. O trato com os grandes escritores, com os prohomens do pensamento, não lhe interessa. Nenhum deles ou raros deles tem ambição de mergulhar o pensamento no mar profundo da sabedoria e afinal as suas ideias e convicções ao diapasão da mentalidade de um Dante, de um Milton, de um Camõesde um Cervantes, de um Campoamor, para aludir de prefeência aos eleitos das musas, ás quais a mocidade, nos seus justos anseios de gloria literaria e no alçar do vôo para os mundos desconhecidos da arte, sempre quis estar em contacto.
E como seria confortador ouvir a noticia de um movimento de reanimação e restauração espiritual, no seio das classes estudiosas e que fosse a mocidade que faz a presente revista a vexilaria desse movimento alviçareiro!

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