Ela... sempre
ela.
Conto por José Sinval de Sá, Nº 184, 3ª
Série.
1941 |

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O Jovem pensava. Como um autômato, sentou-se naquele banco,
isolado, procurando fugir ao convívio dos homens, da sociedade
hipócrita que detestava.
Por vezes, num esforço supremo, os olhos brilhavam como se
quisessem guardar a paisagem e esquecer os pensamentos que turbilhonavam
no seu cérebro. Mas, ela, sempre ela... Ela, uma simples
operária. Mas, era tão ingênua e parecia ser honestissima
... Eram reminiscências que, lhe invadiam agora o cérebro:
Como é singular o destino, pensava; aquele mendigo, por exemplo,
talvez tivesse um passado feliz, aquele maniaco, quantos sonhos abrigará!
Ele também era sonhador. Sonhava com ela, aquela mulher
que se postara ante seu destino. Lembrava-se bem da primeira vez que
a vira. Num carro de 2.ª classe. Tinha ido passar quinze dias
de ferias em casa de um colega de trabalho, donde voltara ansioso
por abraçar sua mãe. Estava muito séria como
que pensativa, porem não denunciava tristeza. E ele não
sabe por que...
- Tem fosforo? Uma voz lhe falou. Parece que acordou, pois sonhava.
Com a mesma displicencia de movimentos, deu o fósforo ao condutor
que lhe falara e continuou a pensar, pois, apesar de procurar esquecê-la,
sentia um prazer ao relembrá-la.
Fôra ao carro da 2a classe, não sabe porque, talvez
para ver novas caras ou quebrar a monotonia da viagem. Estudantes
se compraziam em dirigir pilhérias às moçoilas
sorridentes. Ela, porém, não se sentia bem naquele ambiente,
êle o notara logo ao entrar, por isso nÃo resistiu à
tentação de mandar um direto a um dos impertinentes
que ousou aborrecê-la. Nào sabe porque fizera aquilo.
Nada o prendia àquela operaria, como deduziu logo pelos trajes
e pela timidez, resultado do complexo de inferioridade. Mas o certo
é que se sentiu aliviado ao ver que o estudante se afastava,
lançando-lhe embora olhares de rancor. E ela nem sequer lhe
agradacera, ou por julgar um dever aquele seu ato, ou por timidez.
Sorrira apenas, mas aquele soriso ligeiro e imperceptivel notara um
milhão de agradecimentos. Esquecera o incidente, o sorriso
e aquele olhar profundo que lhepenetrara até a medula dos ossos,
quando por mero acaso, encontrou-a na fábrica na qual recentemente
se empregara. 350$000 para começar. Pensou em casar. E ela,
sempre ela, foi a mulher que lhe ocorreu. Procurou conhecê-la.
E não tardou que entre ambos se iniciasse uma pequena camaradagem.
Os dias corriam morosos quando não a via passar.
Chegou a saber de sua historia; Orfã. Seu pai antigo alfaiate
vitima de terrivel molestia, falecera dois anos antes, deixando sua
mãe apenas com a velha maquina e o casebre que não fora
hipotecado. Sua herança não fora mais que aquilo e um
grande numero de dividas inclusive do bar, donde o velho alfaiate
se tornara assiduo freguez. Bebia. Bebia de cair. Talvez para esquecer
a miseria. E ela, para ajudar sua mãe já cansada de
passar até meia noite debruçada na pesada maquina viu-se
na contingencia de procurar emprego, o que não lhe foi dificil
A simpatia redobra ao saber de sua desventura`.
Começaram as entrevistas e por fim o amor... Mas há
sempre algo que transtorna os sonhos de felicidade...
E os seus sonhos se viram subitamente dissipados com aquela carta
que lhe aparecera no bolso. Uma carta anonima. Procurou não
acreditar nos dizeres da carta e procurou esquecê-la. Dois dias,
três, uma semana de ausencia, mas o esquecimento não
vinha, sempre aquele sorríso penetrante e aquele olhar profundo
a persegui-lo. Nem o sono era possivel; sofria terriveis insonias.
Sentia vontade de gritar que o mundo era ingrato. Mas, não
era ingrato. Aquele casal que olhava para o amor teria a sua opinião?
Ele é que tivera um mau destino, a ponto de renunciar aos sonhos
de felicidade que ideallizara. Sim, seria feliz com ela, restituir-lhe-ia
a felicidade que o destino roubara. Mas... aquela carta...
-Marcos!...
Ouviu alguem balbuciar. Reconhecia aquela voz entre mil. Seria ela
que se achava em sua frente? Ou seria uma miragem?Não era ela...
sempre ela... seu coração batia célere. Talvez
estivesse vermelho como os herois nos romances de amor
- Marcos, ouve-me leste a carta?
Oh! Ela sabia, pensou.Sim, Marcos,- e sua voz tremia,
- a carta que te escrevi. Procurava deixar-te livre de uma simplres
operaria. Mas não resisti - as palavras já eram balbuciadas
- não resisti. Sim, sei que te amo e este amor é mais
forte que a minha vontade. E eis-me aqui a teus pés. Faze de
mim o que quiseres Detesta, abomina e abandona aquela que quis fugir
ao seu destino, mas viu que ele converge inevitavelmente para o teu...
Ah! Compreendia; bem que tinha a impressão de já ter
visto aquela letra...
E sem dizer palavra, puxou-a pelo braço. Para onde a levaria?
Para o destino, para a vida, onde os destinos de ambos se confundiamem
um só.
O sol descia.E ambos de mãos dadas contemplavam o lindo céu
que parecia abençoá-los.
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