Suicídio
Rubens Brasil Sores. Professor do colegio, atualmente na Baía
estudando medicina.
1939 |

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Campanhas contra o suicidio tem sido feitas. Homens de todas as nacionalidades,
usando meios diversos procuram evitá-lo.
Realmente, é lamentavel que os jovens irrefletidos ponham termo à
vida, extinguindo dessa maneira uma existencia que futuramente, poderia
ser util ao lar à pátria e à sociedade.
Entretanto, embora reconheçamos o seu grande erro e procuremos afastá-los
dessa fraqueza mental, os jornais, cotidianamente, registam casos
varios de homens e mulheres que, cansados de viver, recorrem aos tóxicos,
às armas e meios outros, com os quais procuram dar vazão aos seus
pensamentos tresloucados.
Notamos sempre no semblante de quem lê noticias tais, um mixto de
tristeza e compaixão. E' que impulsionados por sentimentos humanos,
sabemos fazer côro aos que se cobrem de luto, sentindo a perda do
ente querido ou do amigo dedicado.
Urge, pois, combater essa marcha negra da sociedade, afastando dela,
os que não sabem aproveitar os encantos de uma mocidade ou as delicias
da vida que lhe foi outorgada.
Duas modalidades de suicidio , entretanto, estão sendo esquecidas,
ou melhor pouco combatidas por aqueles que procuram encaminhar para
o bem, os que deles se afastaram.
Referimo-nos ao álcool e ao fumo. Se os outros tóxicos , tomados em
maior quantidade,, eliminaram uma existência, lembremo-nos dos perigos
destes dois, que levam a sepultura, os seus aficionados. Não seria
absurdo proclamar serem eles os mais nocivos ao homem.
Se um veneno quaolquer, a detonação de uma arma, o enforcamento ou
outro qualquer veiculo de condução à morte devem ser combatidos, com
muito mais razão, estes dois que, ao invés de eliminarem uma pessoa,
conduzem uma geração à ruina e à desgraça.
Ninguém desconhece os efeitos do alcool no organismo humano. Lares
são desfeitos, asilos e penitenciarias estào superlotadas. Inteligencias
lúcidas e espiritos cintilantestêm sucumbido quando apenas vêm a desabrochar.
Quanto ao fumo e é dele que nos ocupamos neste modesto trabalho por
ser mais oportuno, de vez que se trata de uma publicação a ser incluida
numa revista estudantil, inumeros maleficios ele nos traz. E' na meninice,
geralmente, que se adiquire êsse vicio repugnante. Por isso, escrevendo
por solicitação de ex-alunos meus, aos quais muito estimo, e para
ser lido por êles, outra coisa eu não devia fazer, senão abordar um
assunto que lhes interessasse. E assim procedendo , julgo Ter prestado
um pequeno auxilio à formação de seu carater.
E' o fumo um tóxico que atúa diretamente na vida do indivíduo, levando-o
ao túmulo. E' extraordinária a sua ação sôbre o fumador, tornando-se
quasi que impossivel abandoná-lo depois que se constitue vicio. Daí,
a necessidade de evitá-lo. Aos meninos, principalmente, cumpre ensinar
o mecanismo da formação dos habitos, antes que o adquiram.
Entre os fumantes, é comum assegurarem que o fumo não lhes traz dano
algum, que fumam diariamente, vinte ou mais cigarros e que nunca sentiram
nada. Afirmam outros que conhecem casos de fumadores inveterados que
tiveram prolongada existência, enquanto os mais incoerentes dizem
conhecer medicos que fumam, os quais seriam os primeiros a abandonar
o vicio, se este lhes acarretasse algum mal. E' aí justamente, onde
reside o seu grande crime porque as crianças inexperientes ouvindo
palavras tais, inclinam-se a imitá-los. Ao contrário disso, deveriam
reconhecer que se aqueles médicos fumam, insistem mesmo erro e que
as exceções verificadas com fumantes que alcançam longevidade são
devidas exclusivamente às condições especíalissimas de seu organismo.
Demais, como dissemos há pouco, o fumo não age diretamente, mas de
uma maneira lenta e gradativa.
Contendo grande dose de nicotina, adicionada de outros venenos como
a nicocianina, coridina, piridina, viridina, formol e outros mais,
alem de potássio sódio, magnesio e os acidos azóticos sufúrico, sua
ação não poderia de modo algum deixar de ser nociva à nossa saude.
Estes tóxicos sendo absorvidos, mesmo aos poucos, depois de algum
tempo, deixarão o organismo o fumante em condições de ser dominado
pela primeira enfermidade.
Por outro lado, excita o sistema nervoso, acelera a circulação,prejudica
o metabolismo da digestão e sua ação psiquica é-nos grandemente prejudicial.
Em observações que têm sido feitas verifica-se que, geralmente os
alunos mais brincalhões nas aulas, menos estudiosos, pouco inteligentes
e mais desmemoriados são justamente aqueles que já começaram a entregar-se
às tentações desse hábito indesejavel. Identicas deduções têm sido
tiradas pelos diretores dos manicomios e puristas que, pelo assunto,
se têm interessado.
Geralmente o vício é adquirido na infância, adquirindo-o a criança,
por simples espirito de imitação. Entre os adolescentes, alguns o
fazem julgando encontrar no fumo um elemento distinto para melhor
apresentar-se em sociedade, enquanto os que já atingiram certa idade,
influenciados pelo vicio, alegam ser uma distração.
E' costume afirmarem os individuos que já não têm dominio sobre si
proprios, ser impossivel abandonar o prazer de algumas fumaradas depois
de uma chicara de café, após a refeição ou quando se deitar... Alguns
procuram evitar, é verdade, mas se deixam dominar facilmente voltando
ao vicio quando o amigo lhe oferece um cigarro ou quando vêem a sua
cigarreira. Não diremos que o fumador deve obter-se do vicio de uma
só vez. Entretanto, evitando-o aos poucos, dentro em breve, dominá-lo-á.
Recobrará, então, o seu paladar, o olfato o apetite, dormirá melhor,
extinguir-se-á o hábito, não tossirá mais e verá os efeitos que se
produzirão em todos os ramos de suas atividades.
Por outro lado, quando outra não fosse a razão do repudio ao arqueirôso
vicio, o fumante cônscio de seus deveres para com o lar, deveria fazê-lo
por amôr aos seus descendentes. Os filhos do fumante como os do alcoólatra,
não têm senão em casos excepcionais, os mesmos caractéres e o mesmo
vigor que teriam, se os seus genitores não fossem tabacomanos.
Entre os recentes dados pesquisados para averiguar a causa do câncer,
foi verificado que mais dos 92% dos acometidos dessa terrivel molestia,
nos labios, na lingua, na laringe, ou nos pulmões, eram fumadores.
Note-se, enrtretanto, que não é só este o inconveniente que o fumo
pode acarretar. Com uma ligeira análise, veremos que o fumante, na
amior parte das vezes, tem os dentes estragados, dedos e unhas amareladas,
principalmente do lado em que segura o cigarro, vindo tambem prejudicar
a propria vista a irritação causada pela ação da fumaça. E se nós
quisermos investigar outros efeitos desastrosos sobre o organismo,
verificaremos que ele pode até mesmo afetar o funcionamento das grandulas
reprodutivas, levando o fumante à esterilidade.
Combatamos, pois, este flagelo social. Campanhas anti-tabágicas devem
ser difundidas por toda parte, principalmente agora quando o terrivel
mal vem se infiltrando de modo vergonhoso na sociedade, passando de
vicio a moda, conquistando assim, as representantes do sexo fraco,
que levadas pelo espirito de modernismo, sociabilidade ou falsa elegância,
nas praias, clubes ou cassinos, aniquilam a sua graça e juventude
nas baforadas de um cigarro. Este seu gesto impensado virá trazer,
inegavelmente, a si proprias e à sua prosteridade o suicidio fisico
e moral.
E se o vicio se tornar comum às mulheres, maior será o perigo.
Salvemos, pois, a geração de amanhã e resguardemo-nos da morte lenta
mas, eficaz, que, no organismo humano, produz o uso do tabaco.
Cidade de Salvador, setembro de 1939.
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