...E a cobra fumou
(Entrevista dada a Misael Queiróz Sudário por um expedicionário em regresso do front.)Maria Violeta Barbosa, 2ª série.
1945


Leia no original

Depois de uma luta dura e renhida, travada desde 1943 no solo italiano, os soldados da F.E.B. voltam agora exaustos sim, mas cobertos de glória.
<Glória a Deus nas alturas e paz entre os homens de bôa vontade>.
Aquela guerra prolongada por anos, travada nos campos sangrentos da Europa, serviu prodigiosamente para um exemplo forte e edificante de nossa terra e de nossa gente, e que ficará sempre memoriada na história dos povos.
Lembramo-nos agora, dos <pracinhas>, quando no início de suas operações, sem o verdadeiro treino da luta, tiverem que palmilhar palmo a palmo numa extensão de quasi 400km, percorrendo os vales do Serchio, Reno e Panaro e as planícies do Pó,
Entretanto, lembramo-nos com verdadeiro orgulho das batalhas de Monte Castélo, de Montesi e de tantas que impossível seria enumerar e que representam mais uma página de heroismo na história da humanidade.
Assim sendo, foi com indizível prazer que recebemos há poucos dias os nossos vitoriosos <pracinhas>.
A êles, portanto, tributamos todo nosso acato e consideração.

-X-

Abaixo apresento a entrevista que tive com o expedicionário JOSE’ ASSIS DO NASCIMENTO de n. 5898 da 9a. Cia. - 3º batalhão - 6º.R.I.
Iniciando nossa conversação, dirigi-lhe a primeira pergunta:
- Então José Assis, você lutou na Itália, em defesa da Pátria, não foi? Ao que êle me respondia:
<Sim lutei durante um mês e nove dias, tomando partes em diversos combates, um dos quais a grande batalha de Montesi>.
-Quando você iniciou os primeiros combates, isto é, quando recebeu o batismo de fogo?
< Nos primeiros dias de Abril deste ano, em Montesi>.
- Depois que vocês do 3o esquadrão chegaram à Itália, sofreram algum revés?
<Não, nenhuma, visto que os alemães só possuiam infantaria e ainda assim a sorte lhes soprava sempre ao contrário...>
- E, com referência à 148a divisão alemã que sabe você?
< Nós a conquistamos e eu fui um dos que a transportei para o campo de concentração>.
- Como certamente você poude falar com alemães prisioneiros, qual a sua impressão de como se sentiam sendo tratados como prisioneiros e marchando para um campo de concentração?
<Eles não demonstravam grande abatimento moral;somente físico, e como alguns me falaram, estavam satisfeitos. A Alemanha perdia sempre; sem armas, sem soldados e, finalmente, estavam vendo a coisa <preta. para o lado deles>.
- Bem. José Assis qual foi a sua primeira impressão ao chegar à Itália?
< Sentia-me verdadeiramente saudoso e triste, longe de minha pátria. Entretanto, logo me consolei, porque tinha a certeza que breve voltaria>.
- os Italianos se mostravam amigos?
< Sim, com exceção dos italianos-fascistas, todos se mostravam sempre nossos bons amigos e afirmaram sermos nós os seus libertadores.
- Terminando, qual a sua impressão quando pela manhã do dia 17, viu bem perto sua terra natal, nosso velho Ceará?
- <Quando ví o farol de Mucuripe, o Diogo, a Serra do Maranguape, não avalias qual a minha satisfação! Senti-me tão feliz como um filho de volta ao seu lar.
Então senti-me seguro e satisfeito.>
E então terminou com o seguinte:
- ... <E a cobra fumou>....

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