A Reforma do
Ensino Secundário
Entrevistado o nosso diretor.
1942
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Problema momentoso, a Reforma do Ensino Secundario que se acaba de
processar no Brasil entra na sua fase de aplicação.
Novos métodos, novas diretrizes, novos programas. Abandona-se
o estudo das ciências modernas e volta-se ao humanismo clássico.
Haverá vantagens?
Foi à cata de verdade sobre o assunto que procurámos
entrevistar o nosso diretor, Dr. Edilson Brsil Soárez, mestre
que está afeito às lides da educação há
uma década e que já conta grandes serviços prestados
á educação de nossa mocidade, conduzindo-a para
um futuro brilhante.
Aventurámos três perguntas:
I - julga eficiente a nova lei orgânica do ensino secundário?
A esta nossa primeira pergunta, o nosso entrevistado respondeu:
- Preliminarmente, preciso frisar que sempre fui um entusiasta da
Reforma de Francisco de Campos, no que toca às novidades bem
apreciaveis por ela introduzidas no ensino secundário, entre
os quais a exigência de aparelhagem adequada nos estabelecimentos
de ensino, o registroi e conveniente preparo do professor, a fiscalização
e orientação oficial por meio de técnicos e inspetores
e o regime de provas parciais. Com respeito às provas, ficaram
os alunos isentos de único exame final, mais espetáculo
de nervos que demonstração de preparo. A par destas
e outras vantagens, pecava a lei Campos pela enorme extensão
dos programas, pelo pretenso enciclopedismo deletério e fátuo
e pela especialização prematura, platônicamente
esperada de alunos afogados em ciências e letras. Por outro
lado, a realização de provas bimestrais prejudicava
em grande parte o ano letivo.Professores e alunos quasi que viviam
de provas.
A nova lei orgânica, que traz a rubrica de Gustavo Capanema,
procurou corrigir os defeitos da lei Campos. Suprime-se um ano no
curso ginasial, dilata-se o segundo ciclo, desdobrando-o em curso
clássico e curso cientifico. Suprimem-se duas provas parciais
e faz-se a restrição nos programas.
Bem disse alguem que a última década se caracteriza
no Brasil pela contínua tranformação e adaptação
das leis e instituições, de maneira que sincronizem
com o ambiente brasileiro hodierno. Em educação, também
tem sido assim.
E a Reforma Capanema segue o mesmo diapasão.
Tornando o curso ginasial mais acessivel e ao mesmo tempo mais transponivel,
fê-lo mais popular e mais eficiente. Por outro lado, deu-lhe
um carater mais pragmático, incluindo os trabalhos manuais
e a economia doméstica. Só os espiritos selecionados
cursarão o segundo ciclo.
A supressão de ferias joaninas e a diminuição
de provas parciais ampliou o ano letivo, para gáudio de professores
e alunos.
A restrição nos programas tornou-os, e, só agora,
exequiveis.
Já se vê que a Reforma Capanema deu um passo adiante
da lei Campos, aperfeiçoando o regime. Injustiça seria
esquecer no entanto, que para esse passo agigantado na educação
secundária, muito concorreu a atual diretora da divisão
de Ensino Sécundario - a educadora D. Lúcia Magalhães.
II - Que diz da intensificação do estudo de linguas?
Foi outra novidade da atual reforma, relegando a um plano inferior
o estudo das ciências, tão bem cuidadas na lei Campos,
voltou às humanidades clássicas. Trocou a física,
química e história natural, no curso ginasial, por um
estudo intensivo e extensivo de latim. No Colegial incluiu o grego.
O humanismo clássico tem suas vantagens. O latim é a
disciplina do raciocínio e poderoso instrumento de formação
intelectual. As grandes civilizações o foram pela sua
cultura literaria.
A tradição dos países lideres da velha Europa
está na ordem direta do seu classicismo.
E é inteeressante notar que nas nações mais civilizadas
do globo o regime de ensino tem sido, notadamente nos ultimos anos,
o do humanismo classico. Será que todos eles estão errados
e só Brasil estava certo? Na propria Alemanha estuda-se o latim
durante nove anos em todos os cursos e, em alguns, o grego, em seis
anos. Isto para não falar na França, na Espanha, ou
na Italia, países de origem latina. Nesses paises tem-se o
latim em todos os cursos, numa média de nove aulas semanais.
E é preciso salientar que a atual reforma não abstraiu
as ciências: restringiu o seu programa, dando-lhe uma feição
mais interessante, no dominio das ciências naturais e da higiene.
Os candidatos à engenharia, à odontologia, e à
medicina que se preparem no curso científico para ingresso
nas respectivas escolas superiores.
Para mim, individualmente, apoiando até certo ponto a volta
ao humanidsmo classico, gostaria que se não tivessem decepado,
tão cruelmente, os programas cientificos no que se relaciona
com a vida prática. Tendemos para uma época notadamente
pragmática, em que os conhecimentos das lições
de cousas serão um subsídio de apreciavel valor para
a vida em sociedade.
III - Colocando-se em evidência o mundo efetivo e social, acha
que existe algum inconveniente na frequencia mixta?
Esta pergunta se relaciona com um outro aspecto da lei Capanema,
que, permitindo a frequencia mixta, prefere que as classes sejam sexualmente
homogeneas. O legislador foi arguto: se, por um lado, não quis
contrariar uma corrente representada no Conselho Nacional de Educação,
por outro não esqueceu as teorias mais modernas de pedagogia
do adolescente, com a aquiescencia à pratica benfazeja da coeducação.
Nem poderia o Brasil voltar à Idade Média, adotando
processos de ensino contrários aos das civilizações
mais esclarecidas do orbe. Já vai muito longe o tempo em que
a mulher era educada sem contacto com o homem, para cair, cega e inexperiente,
em suas lábias mais traiçoeiras. Ou, temendo-o, para
fugir à procriação e ao aconchego santo do lar.
Já vai muito longe o tempo em que o homem era educado sem contacto
com a mulher, tornando-se um grosseirão, um estúpido,
um guerreiro enfim.
"A educação moderna compreeende que é necessaria
a influência de um sexo sobre o outro para a formação
social e espiritual, pois que em todos os aspectos da vida se completam.
A delicadeza das moças e o entusiasmo dos moços, a maior
facilidade de lógica destes e a intuição peculiar
àquelas, todos os dons caracterísiticos de uns e outros
se completam maravilhosamente, não só na constituição
do lar, como da sociedadepelo que a coeducação é
imprescindivel à formação de caractéres
perfeitos", diz Rodolfo Anders.
O século em que vivemos é de liberdade. Agora mesmo
as democracias e notadamente as americas se batem pela liberdade.
E porque tiranizar a mulher? Por que fazê-la voltar aos tempos
trevosos de uma civilização que passou?
A moça que não conviveu com rapazes de sua idade nunca
poderá conhecer o homem, nunca poderá escolher um noivo,
nunca saberá entender o marido: conhecerá e compreenderá
apenas suas colegas e amiguinhas!
Que a educação fisica seja separada, porquanto organismos
desiguais pedem exercicios fisicos desiguais. Que as aulas de trabalhos
manuais sejam separadas, porquanto aptidões diferentes exigem
aplicações diferentes.
Mas que cérebros e corações que têm de
viver em comum se eduquem em comum, para felicidade do lar brasileiro.
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