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O navio ITABERA partiria pela manhã de Fortaleza para Recife. Nele embarcaria Nila Andrade Gomes. Era o ano de 1926, Nila com 9 anos estava indo terminar seu curso primário na escola presbiteriana Agnes Erskine. Junto com ela também estavam embarcando suas colegas da igreja presbiteriana Hermantine Cortez e Francisquinha Fontenele.

O Colégio Agnes Erskine foi fundado no início do século em 1904, era um centro de excelência de ensino na Região Nordeste montado pela Missão Norte-Americana Igreja Presbiteriana Sul (existiam mais 3 escolas no Nordeste: duas na Bahia e uma na Paraíba).

"A missionária Miss Margaret Douglas dirigia a escola. Nossa professora era a Miss Martin. Tínhamos aulas de piano que eram dadas pela Miss Rayd. A escola nesta época já era mista e boa parte dos alunos, como nós, ficava no sistema de internato. Pela manhã tínhamos as aulas e a tarde banca de estudos. No final de semana ficávamos na igreja e no Domingo a tarde tínhamos tempo livre. (depoimento da D. Nila Gomes Soárez em agosto de 2001)"

 

 

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O ensino das escolas presbiterianas destacava-se das outras escolas no Brasil por usarem métodos modernos trazidos das escolas norte-americanas. Faziam ensino misto numa época em que a grande maioria das escolas separava os seus alunos. As aulas eram ministradas por missionários norte-americanos. Investiam em esporte (o colégio Agnes foi o primeiro a introduzir times femininos de vôlei no Nordeste. Marilda Vasconcelos da seleção do Agnes chegou a participar da Seleção Brasileira). O ensino era mais motivador, livre e sem castigos.

Inteligência, capacidade e grande motivação para aprender sempre acompanharam Nila Gomes. Em 1935 lá estava ela concluindo o Curso de Contabilidade na Fênix Caixeiral em Fortaleza. Mesmo depois de casada com o prof. Edilson, em 1945 concluía o Curso Social no Colégio da Imaculada Conceição e em 1948 recebeu certificado do Curso de Economia Doméstica promovido pelo MEC em Fortaleza. Foi graças a estes dois últimos cursos que Nila passou a coordenar o Departamento Feminino do colégio ministrando aulas de economia doméstica.

" Algumas aulas como as de etiqueta eram dadas na própria sala de aula. As aulas de culinária eram dadas fora do horário das aulas uma vez por semana, normalmente à tarde, das 13:30 às 17:30. Em cada aula de culinária eram preparados um prato salgado e dois doces. Às vezes sobravam ingredientes e então fazíamos mais outra receita. Tinha uma amizade e um carinho muito grande com todas estas meninas... (depoimento da D. Nila Gomes Soárez em agosto de 2001)".

 

 
 

O curso de Economia Doméstica iniciado no final da década de 40 se transformou numa verdadeira febre nos anos 50. Parte por influência dos Estados Unidos. Com o fim da guerra, criaram o Curso Superior de Economia Doméstica para ocupar as mulheres que saíram das fábricas e voltaram para casa. A outra influência vinha, digamos assim ... das "pressões sociais".
O grande objetivo colocado pela sociedade brasileira para as mulheres dos anos 50 era o de casarem-se, serem mães e donas de casa. Com o advento da publicidade de massa (jornais, TV, revistas, rádio) as moças eram bombardeadas com inúmeras variações da mesma mensagem: agarre o seu marido o mais rápido possível !
Com mais de 20 anos e sem casar a moça era considerada "encalhada", depois dos 25 já era chamada de solteirona ou que "tinha ficado para titia... ". Veja um conselho dado por uma revista dirigida ao público feminino muito lida na época:

"Há vantagem em casar cedo? Sim! [...] A mulher jovem tem mais energia para criação dos filhos [...] [Quem pensa] que não deve assumir tão jovem as canseiras de mãe de familia e dona de casa [...] são espíritos fracos. [...] A mulher se sentirá útil e este simples pensamento a aliviará em seus momentos de canseira [...] Uma moça com 18 anos já está em condições de assumir um casamento. Consideremos, portanto, que, em situação normal, a mulher não deva casar-se antes dos 18 anos. Mas dessa idade em diante e de preferência mesmo não muito além dela a mulher deve casar-se. (Revista O Cruzeiro, 11 abr. 1953)"

 

 

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Cursos de economia doméstica, nos moldes dos dados naquela época, existem até hoje na Escola Doméstica de Natal no Rio Grande do Norte. A escola de Natal foi fundada em 1914. Seu currículo foi copiado da escola suíça de Friburgo. Mesmo até pouco tempo, algumas escolas religiosas ainda mantinham algumas disciplinas de economia doméstica como relata a jornalista Ana Fonteles:

"Sou do tempo em que boas maneiras se aprendiam na escola. E se você pensa que já passei dos cinqüenta, é puro engano. Faz apenas 15 anos, eu era mais uma das centenas de meninas ansiosas disputando uma vaga na última escola doméstica de Fortaleza. Tradicionalíssima, cinqüentenária, ela era o único colégio de freiras completamente fechado para meninos. [...] Na quinta série recebíamos fundamentos de costura [...]. Tínhamos ainda aulas de organização do lar. O que incluia arrumação de armários e gavetas [...]. Foi a época que tive aulas como dobrar calcinhas em flor. Isso mesmo! "Assim quando você abrir as gavetas terá a impressão de estar num jardim florido", ensinava a irmã Luíza. ( Caderno Allmanaque, O Povo, 15 de setembro de 2002)"

Nila continuava estudando e se atualizando. Fez o Curso de Aperfeiçoamento Técnico da CADES, Curso de Aperfeiçoamento de Educação Social no Rio de Janeiro em 1964 e foi várias vezes presidente nas Diretorias e Confederações de Trabalho Feminino da Igreja Presbiteriana do Brasil.
Em breve ela passaria por uma das grandes provações da sua vida. Assumir a direção de toda escola.