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Decididamente aqueles não seriam anos bons para os cearenses. Depois das duas guerras de 1912 e 1914, seu Jader e sua família iriam assistir em 1915 a pior seca de todos os tempos. Um pressentimento ruim tomava conta de todo mundo. Toda população dependia de alguma forma da agricultura e a agricultura dependia das chuvas. Os comerciantes ficavam sem ter para quem vender, além disso ainda estavam sujeitos a saques dos flagelados, ou o que era mais comum, acabavam tendo que dividir o pouco que tinham com parentes e agregados mais necessitados. O ambiente ficava pesado e só restava rezar, e rezar muito para que as chuvas aparecessem.

 

 
 
 

Só duas classes de gente lucrava (e ainda lucra) com as secas: os políticos porque receberiam mais verbas "para ajudar aos flagelados" e grandes donos de terras que aproveitavam para adquirir mais terras e o gado magro dos pobres retirantes.

O preço de tudo subia e o seu Jader já sentia no bolso como pesava cuidar da família, que em breve voltaria a aumentar.

Dona Dica passou a dar aulas na escola da cidade. Ela era professora formada pela antiga Escola Normal. Naquela época havia pouquíssimas professoras diplomadas. Era sempre uma honra para o Grupo Municipal ter uma professora formada dando aulas. Ao dar aulas D. Dica colocava mais algum dinheiro em casa.

 

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O dia de São José já havia passado fazia duas semanas e nada de chuva. Em Fortaleza começavam a chegar os primeiros retirantes vindos do interior. As pessoas sem ter o que comer e o que beber vinham para a capital em busca de algum trabalho ou mesmo ajuda.

Dois meses depois começavam a chegar do escritório central da EFB em Fortaleza passagens de trem para serem distribuídas entre os retirantes.

A estação do seu Jader fervilhava de gente. As passagens só davam para uns poucos. A maioria acabava tendo que vir a pé para capital para não morrer de fome e sede.

O governo federal estava prestes a autorizar a retomada da construção da EFB para dar ocupação a uma parte dos retirantes.

A miséria campeava infrene e terrífica em toda extensão do território cearense, e não havia lar que não tivesse sido assaltado pelo abutre da fome, com as suas garras aduncas e afiadas. A cidade de lguatú, mais que as demais situadas a margem da via-ferrea, regorgitava de famintos d'este e dos estados visinhos acossados também pelo excepcional flagello, reduzidos a penúria extrema - sem pão e sem abrigo.

A miséria, consubstanciada nos trapos esquálidos e na cachexia profunda dos infelizes retirantes, emergia de todos os pontos da cidade. Era que em seu seio - praças, ruas e cercanias - achavam-se acantonadas cerca de 15.000 indigentes, todos a expensas exclusivamente da caridade particular já esgotada, aguardando, anciosos e com impaciência inquietadora de quem aspira com vehemência ver o término de seus sofrimentos, o início dos trabalhos do prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité. A varíola, em virtude da grande aglomeração de emigrantes e falta absoluta de hygiene entre elles, não se fez esperar; manifestou-se ameaçadora em diversos abarracamentos, sendo, porém, logo debellada, graças ao emprego de medidas enérgicas tomadas por este districto, - mandando isolar os pestosos e desenvolver com actividade a vacinação. ( Relatório da Inspectoria Federal das Estradas em:Benedito Genésio Ferreira - A estrada de Ferro de Baturité: 1870-1930 – Ed. NUDOC/UFC, 1989)

 

 

Muita gente morreu de fome e doença naquela seca. Não só nas várias cidades do interior, mas principalmente Fortaleza foi invadida por retirantes.

O quadro de angústias e misérias que se presenciavam na própria capital, ampliava-se e reproduzia-se em todo o interior do Estado, como se fosse um cinema ambulante, a exhibir em scenas successivas, as mesmas fitas macabras! ( Relatório da Inspectoria Federal das Estradas em:Benedito Genésio Ferreira - A estrada de Ferro de Baturité: 1870-1930 – Ed. NUDOC/UFC, 1989)

O governo acuado desenvolveu alguns métodos para cuidar dos retirantes da seca. Um deles era mandá-los para a Amazônia onde havia prosperidade com a exploração da borracha. Neste ano estima-se que 30.000 retirantes migraram para a Amazônia.

Cenas de desespero e impotência ante a prepotência governamental eram rotineiras no porto de Fortaleza. (...) Os comandantes dos navios onde viajavam os nordestinos (nos porões) da terceira classe, tinham ordem de proibir o embarque de doentes. (...) Inúmeras famílias foram desfeitas quando do embarque, pois ao ser detectado qualquer doente, o comandante mandava imediatamente desembarcá-lo. Assim muitas mães e pais foram separados a força dos filhos. (Vida e Morte no Sertão - Marco Antonio Villa - Ed. Ática, 2000)

A família da menina Nila , que mais tarde viria a se casar com o fundador da escola, foi uma das que migraram para Amazônia por volta do ano de 1908. Mesmo em anos que não tinham seca, muitos cearenses migravam por conta própria para tentar a vida na Amazônia. Nila nasceu em 1917 na cidade de Rio Branco atual capital do Acre. A ideia de ir para Amazônia teria sido da sua mãe D. Maria Felicia de Andrade Gomes. Seu pai o Sr. Antonio Gomes de Souza acabou concordando com a viagem.

 

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O outro método para lidar com os retirantes foi a construção de campos de concentração. No romance O Quinze, da escritora cearense Raquel de Queiroz, é possível ler descrições detalhadas de um destes campos de concentração. A personagem principal do romance Conceição ajudava na distribuição de comida e roupas no campo. O romance chama-se O Quinze por tratar justamente da seca de 1915.

O povo cearense tem o hábito de rir da própria desgraça. Em Fortaleza, um bode trazido pelos retirantes desta seca virou personagem histórico porque vivia passeando sozinho pelas ruas como se fosse mais um habitante da cidade. Era muito conhecido das crianças da época. Seu nome era bode "ioiô". Ao morrer o bode foi empalhado e pode ser visto no Museu Histórico do Ceará.